Caros,
leitores: todas as entrevistas abaixo foram realizadas no ano
de 2011, pelo autor Lohan Lage, durante o período do I Concurso de Poesia
Autores S/A. Os entrevistados contribuíram gentilmente com seus pareceres neste
certame poético.
Entrevista
com: Márcia Barbieri
Márcia Barbieri é
paulista. Formada em Português/Francês pela UNESP, pós-graduada em Prática de
Criação Literária, organizado pelo escritor Nelson de Oliveira. Tem textos
publicados nas revistas literárias “Coyote”, “Polichinello”, “Cronópios”, “Germina”,
“Escritoras Suicidas”, “O Bule” e “Meio Tom”. Lançou em 2009 o livro de contos “Anéis
de Saturno”, pelo Clube de Autores. Lançará em julho de 2011 o livro de contos
intitulado “As mãos mirradas de Deus”, pela editora Multifoco. É colunista das
revistas literárias eletrônicas “O Bule” e “Sinestesia Cultural”. Foi colunista
da revista eletrônica “Caos e Letras”. Edita o blog: A Vida Não Vale Um Conto.
E-mail: marcia_barbieri@hotmail.com
Lohan:
Nós, organizadores deste concurso de poesia, estamos bastante felizes com sua
presença como jurada convidada desta rodada. Algumas pessoas criticaram o
modelo deste concurso, alegando ser uma espécie de "BBB poético",
além da exigência que há na entrega do poema dentro de um determinado prazo. O
que você pensa a respeito deste concurso? Você acredita que o prazo determinado
pode ser prejudicial à escrita do poeta?
Márcia:
Todo concurso é um estímulo aos poetas, acho uma iniciativa maravilhosa, afinal
não é um trabalho fácil organizar um concurso. É claro que escrever dentro de
um prazo é sufocante e talvez possa interferir um pouco na criatividade, no
entanto, ao mesmo tempo, dá oportunidade que o poeta apresente trabalhos
anteriores que se encaixem na proposta, já que o tema, neste caso, é bem
abrangente.
Lohan:
Qual foi sua impressão geral em relação aos poetas finalistas, de acordo com os
poemas apresentados a você nesta etapa?
Márcia:
Tem poemas muito bons, entretanto, por se tratar de um tema muito explorado (“O
Velho e o tempo”), muitos escritores acabam se perdendo em imagens e metáforas
gastas, o que acaba empobrecendo os seus escritos.
Lohan:
Enfim, gostaríamos que você deixasse uma mensagem aos poetas competidores e aos
poetas, em geral. Afinal, existe a receita da boa poesia? O que mais te encanta
em um poema?
Márcia:
Odeio falar em receitas e não acredito em fórmulas mágicas. O que mais me
encanta em um poema são as imagens, as metáforas. O poema precisa emocionar,
surpreender. Gostaria também de enfatizar que toda leitura é subjetiva e não
encerra verdades, é apenas a verdade de alguns. Boa sorte a todos.
Entrevista
com: Edson Kenji Iura
Edson é nascido e residente em São
Paulo. Trabalha na área de informática. Desde 1991 é devotado à prática do
haicai como membro do Grêmio Haicai Ipê. Seleciona haicais de leitores para
publicação no “Jornal Nippak”. Pioneiro na divulgação do haicai brasileiro na internet
como editor do "Caqui" (www.kakinet.com), primeira revista eletrônica
em português exclusivamente dedicada ao assunto, fundada em 1996. Administrador
do fórum eletrônico "Haikai-L", o primeiro na internet dedicado ao
haicai brasileiro, fundado em 1996. Jurado de concursos de haicai. Tem haicais
publicados em antologias. E-mail: kakinet@gmail.com
Lohan:
Edson, é um prazer, primeiramente, recebê-lo aqui, no Autores S/A. Você, um dos
maiores mestres do haicai brasileiro, faz parte do Grêmio Haicai Ipê (GHI), um
grupo de haicaístas especializados, responsáveis por estudar e compor haicais.
Conte-nos um pouco mais sobre este Grêmio.
Edson:
O Grêmio Haicai Ipê foi fundado em 1987 por entusiastas do haicai, sendo o
primeiro grupo de estudo e composição de haicais em português do Brasil. Mantém
suas reuniões em São Paulo, ininterruptamente, desde então. Promove eventos
como o Encontro Brasileiro de Haicai, o Concurso Brasileiro de Haicai
Infanto-juvenil e o Concurso de Haicai Goga Masuda. Seu inspirador é o poeta
Goga Masuda (1911-2008), mestre que escreveu haicais em japonês e português.
Lohan: Nós, organizadores, decidimos criar uma padronização nas postagens dos poemas do concurso: postamos de acordo com a ordem alfabética dos títulos dos poemas. Sendo assim, pedimos aos poetas participantes que empregassem um título aos seus haicais (embora saibamos que seja uma atribuição facultativa). O que pensa a respeito desta nossa decisão? Por que um haicai não carece de um título?
Edson: Relembrando o mestre Goga, "o haicai é um diálogo entre autor e leitor". O que importa é a interpretação que o leitor dá ao texto do autor. Na maioria das vezes, o título direciona a decifração do poema, quando não se transforma num simples atalho para que o autor imponha a sua visão. Além disso, numa forma tão curta, acaba funcionando como um quarto verso, somando gordura ao texto. Tentei ignorar os títulos durante os julgamentos.
Lohan: Em uma entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão (site Garganta da Serpente), você afirma, em uma de suas respostas, que não é um escritor por profissão, mas sim, apenas um médium. Como você definiria essa mediunidade, em relação aos seus escritos?
Lohan: Nós, organizadores, decidimos criar uma padronização nas postagens dos poemas do concurso: postamos de acordo com a ordem alfabética dos títulos dos poemas. Sendo assim, pedimos aos poetas participantes que empregassem um título aos seus haicais (embora saibamos que seja uma atribuição facultativa). O que pensa a respeito desta nossa decisão? Por que um haicai não carece de um título?
Edson: Relembrando o mestre Goga, "o haicai é um diálogo entre autor e leitor". O que importa é a interpretação que o leitor dá ao texto do autor. Na maioria das vezes, o título direciona a decifração do poema, quando não se transforma num simples atalho para que o autor imponha a sua visão. Além disso, numa forma tão curta, acaba funcionando como um quarto verso, somando gordura ao texto. Tentei ignorar os títulos durante os julgamentos.
Lohan: Em uma entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão (site Garganta da Serpente), você afirma, em uma de suas respostas, que não é um escritor por profissão, mas sim, apenas um médium. Como você definiria essa mediunidade, em relação aos seus escritos?
Edson:
Essa entrevista deve ter mais de dez anos. Quis dizer que me vejo mais como
facilitador do que produtor. Através de minha atividade na internet, procuro aproximar
as pessoas do haicai.
Lohan:
Pra terminar, pergunto-lhe qual autor, ou quais autores, você considera o
grande(s) nome(s) do haicai no Brasil? Que obras você recomenda àqueles que
desejam trilhar o caminho dos haikus?
Edson:
Entre os autores vivos, quero citar todos os poetas do Grêmio Haicai Ipê, é
claro. Num degrau acima, a senhora Teruko Oda, certamente a melhor entre eles.
Paulo Franchetti, professor da Unicamp, é o grande intelectual do haicai
brasileiro, que também começa a se destacar como poeta. E, num registro um
pouco diferente, Alice Ruiz, uma poeta de alcance popular, que dedica um grande
espaço de sua criação ao haicai. Livros: enquanto Paulo Franchetti não reedita
o seu necessário "Haikai - antologia e história" ou lança uma outra
obra de fôlego semelhante, a melhor referência que posso dar é em língua
inglesa: "Traces of dreams - Landscape, Cultural Memory, and the Poetry of
Basho", do nipo-americano Haruo Shirane, uma leitura apaixonante para
todos os amantes do haicai e da poesia em geral.
Entrevista
com: Vera Americano

Vera nasceu em Minas Gerais. De família
goiana, residiu entre Goiás e Rio de Janeiro e, mais tarde, em Brasília.
Estudou Letras na Universidade de Brasília (UnB), e fez mestrado em Literatura
Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Foi
professora de teoria da literatura na Universidade Santa Úrsula, no Rio de
Janeiro. Em Brasília, trabalhou no Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC),
na Fundação Nacional Pró-memória e na Consultoria Legislativa do Senado
Federal, para a qual se habilitou mediante concurso para o exercício da função
na área de cultura e patrimônio histórico.
Sobre a sua poesia,
disse o filósofo e poeta português Agostinho da Silva: “A sua exactidão é um
caminho para o divino, não um fim em si própria: o seu reino não é a oficina,
mas um céu indistinguível da terra. A sua forma perfeita seria o hai-kai, o
contado número de sílabas para conter o máximo de emoção. (...) E os há em seus
poemas.” Publicações: “A Hora Maior”, poesia, 1º prêmio da União Brasileira de
Escritores, 1970; “Viaje ao reino de Cora Coralina”, ensaio, El Urogallo,
Madrid, 1996; “Arremesso livre”, poesia, Rio de Janeiro, Editora Relume Dumará,
2004; “Os Cine-jornais sobre a construção de Brasília”, ensaio,
MinC/SPHAN/Pró-memória, Rio de Janeiro, 1988; Participação em: antologias (“Poesia de
Brasília”, organização de Joanyr de Oliveira; “Deste Planalto Central”,
organização de Salomão Sousa, entre outras); suplementos literários e revistas
(“Poesia Sempre”, Fundação Biblioteca Nacional; “Tropos”, Michigan State
University, entre outras); sites, blogs e revistas eletrônicas (“Cronópios”,
“Casa das Musas”, “Máquina do Mundo”, “Diversos afins”, entre outros).
Lohan:
Vera Americano, primeiramente, é um imenso prazer recebê-la aqui, neste evento
poético virtual de âmbito nacional. Vera, eu já li um livro de sua autoria, o “Arremesso
Livre”, e também alguns poemas encontrados apenas na Internet, em sites como o
do Antônio Miranda (www.antoniomiranda.com.br). Percebe-se uma singularidade
incomparável, pelo menos sob meu ponto de vista, em sua poesia, bem como um
teor hermético que instiga o leitor. Plagiando a pergunta que Júlio Lerner fez
à Clarice Lispector numa de suas entrevistas, você se considera uma escritora
hermética? Afinal, o que é o hermetismo para você?
Vera:
Se há hermetismo, acredite, não é intencional. Possivelmente, minha opção pela
economia e pela concisão do verso possa levar a esse juízo. Ocorre que, como
efeito direto da concisão, o texto poético carrega consigo várias e generosas
camadas de sentido, o que, por sua vez, pode suscitar múltiplas leituras. A meu
ver, uma dicção prolixa, ao contrário, entrega ao leitor o poema decantado, o
que pode lhe arrefecer o ímpeto de atribuir aos versos novos sentidos nascidos
de sua própria leitura. É bom ressaltar, no entanto, que, obviamente, não se
trata de uma regra geral. Há primorosas e magistrais exceções, poetas que são
autênticos ícones, cuja opção pelo poema de longo curso não cala as muitas
vozes de suas obras. No meu caso específico, a economia verbal é uma das formas
utilizadas para se alcançar o que se poderia chamar de efeito poético, o que
tem a ver com a emoção, com o envolvimento, com a surpresa.
Lohan:
Meu primeiro contato com seus poemas foi pela Internet. Muitos poetas sofrem
com o anonimato e com a não valorização editorial de suas poesias. Haja vista
esta problemática, a utilização desta ferramenta (Internet) para a divulgação
da poesia estaria se dando de modo emergente?
Vera:
Sim, não há dúvida. Mesmo os autores apegados ao papel, à edição convencional,
têm se rendido ao imenso vigor demonstrado pelas novas mídias. É conhecido o
árduo caminho que um poeta precisa trilhar até o prelo de uma editora.
Democraticamente, a web tem expandido as possibilidades de divulgação da poesia
e, por isso mesmo, anda provocando um merecido e saudável reboliço. A meu ver,
a facilidade oferecida por esse caminho tem favorecido, também, a proliferação
de uma certa gratuidade, o que, no entanto, não ofusca nem a significativa
produção de qualidade disponível nesse meio, nem a revelação de novos talentos.
Lohan:
O modo de eliminação deste concurso se dá através da soma das notas dos jurados
e, posteriormente, pela decisão do público (voto pela enquete). O que você
pensa a respeito dessa interação do público no concurso? Existe justiça neste
modo de eliminação ou esse molde (voto popular) banaliza a poesia?
Vera:
Não banaliza, de forma alguma. Entendo que o voto popular, geralmente carregado
de subjetividade, é muito importante para testar o apelo dos poemas
concorrentes. Essa tal de subjetividade - fator concorrente em qualquer avaliação
de um texto literário - dificilmente deixa de existir, a menos que se lance mão
de parâmetros analíticos de natureza estritamente técnica. Assim, à parte o
juízo mais crítico e, digamos, mais especializado dos jurados, a participação
popular, como já afirmei, me parece muito importante. Além disso, não se pode
deixar de valorizar esse tipo de interação do ponto de vista do incentivo e do
despertar do gosto pela leitura de poesia. Nesse sentido, em particular, a
iniciativa dos Autores S/A é admirável e merecedora de todo aplauso.
Lohan:
Nesta etapa do concurso, os poetas competidores produziram haicais. Lido os
haicais, peço-lhe que deixe uma mensagem a todos eles e, também, ouso lhe
pedir: por que não um haicai de sua autoria, especialmente para o concurso?
Vera:
Vamos lá, poetas! É chegada a rodada dos haicais! Não parece excessivo
rememorar que o haicai (ou hai-kai, como no original japonês), forma poética de
reduzidas proporções e de grande impacto, tradicionalmente ligado à observação
da natureza, traduz, com extrema concisão, um olhar, uma sensação, uma
impressão. De um só fôlego, o poeta transmite, por exemplo, uma mínima fração
do tempo, um roçar de asas, a queda de uma pétala. De essência contemplativa,
abrindo espaço para a reflexão, o haicai lança mão de uma linguagem poética
sutil e delicada, mas, ao mesmo tempo, direta e objetiva, dispensando adornos,
metáforas, devaneios.
O maior desafio recai
na escolha das palavras. Já que são tão poucas, elas costumam ser extremamente
precisas: o flash de um efêmero instante contido no total de escassas 17
sílabas poéticas. Originalmente, o haicai dispensava a rima, mas a tradução
ocidental fez com que o primeiro verso, quase sempre, rimasse com o terceiro.
No entanto, autores de reconhecida competência na composição de haicais
dispensam a rima. Assim, desde que mantidas as regras estabelecidas pelo
concurso relacionadas à metrificação (o primeiro verso com 5 sílabas poéticas,
o segundo com 7, o terceiro com 5), à necessidade de titulação e às
características essenciais inerentes ao gênero, os haicais foram bem-vindos,
com ou sem rima.
Parece-me indispensável
frisar que os haicais concorrentes formam um precioso conjunto de muito bom
nível. A regra de atribuição de título, estabelecida pela organização do concurso,
foi habilmente explorada por grande parte dos concorrentes. Esses poetas
converteram a obrigatoriedade em um eficaz recurso: a atribuição de uma chave
para a leitura e consequente ampliação da voltagem poética de seus versos.
A todos os poetas concorrentes,
meu louvor, meu incentivo! Que se abram à serenidade, à inspiração e ao
trabalho! E que venha a poesia!
Boa sorte a todos! E a propósito:
ZEN
sábia perfeição:
as corolas da manhã
aguardam a sombra.
Autora: Vera Americano
(Poema inédito de Vera Americano,
concedido especialmente para o I Concurso de Poesia Autores S/A).
Entrevista
com: Geraldo Lima
Geraldo nasceu em Planaltina (GO), em
1959, e mora em Sobradinho, DF. Formado em Letras pelo CEUB e Francês pela
Aliança Francesa de Brasília, trabalha como professor de Língua Portuguesa e
Literatura Brasileira na SEDF. Escritor e dramaturgo, publicou os livros “A
noite dos vagalumes” (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária,
FCDF), “Baque” (contos, LGE Editora/FAC), “Nuvem muda a todo instante” (infantil,
LGE Editora), “UM” (romance, LGE Editora), “Tesselário” (minicontos, Selo 3x4,
Editora Multifoco) e “Trinta gatos e um cão envenenado” (peça de teatro,
Ponteio Edições). É colunista dos sites “O Bule” www.o-bule.com e “Portal Entretextos” http://portalentretextos.com.br.
Colabora com o “Jornal de Sobradinho”, DF, com o “Jornal Opção”, em Goiânia, e
com a revista “TriploV” www.triplov.com.
Mantém o blog Baque: www.baque-blogdogeraldolima.blogspot.com.
E-mail: gera.lima@brturbo.com.br
Lohan:
Olá, Geraldo. Primeiramente, é um prazer recebê-lo aqui, no blog Autores S/A.
Muitos programas midiáticos, ultimamente, têm apresentado uma crítica social
muito bem construída sob a égide da sátira, do bom humor. Eu os chamo de
neo-gilvicentinos. Você aprecia este tipo de crítica? Não estaria havendo uma
banalização desta crítica, considerando-se o extenso número de profissionais
que se utilizam desta atitude satírica e cômica para dirigirem suas críticas?
Geraldo:
Primeiro, quero agradecer pelo convite e espero contribuir para o sucesso do
evento. De fato, tem surgido um número considerável de programas midiáticos que
exploram esse filão do humor com um viés de crítica social. Penso, no momento,
num programa como CQC. Há boas tiradas ali e enfoques contundentes de questões
sociais que afligem o dia a dia da população mais carente. Tem funcionado.
Agora, se a fórmula se repete ad nauseam,
a tendência é perder a eficácia. Gosto, particularmente, do humor corrosivo,
que deixa à mostra o ridículo de certas convenções sociais e de comportamentos
travestidos de falso moralismo. Aí temos que lançar o olhar para o passado e
nos lembrarmos de Aristófanes, Gil Vicente, Molière, no teatro, e, na poesia,
da sátira de Gregório de Matos Guerra e de Luiz Gama.
Lohan:
O tema desta etapa do concurso é a Crítica Social. Muitas obras literárias e
musicais são responsáveis por belas e eficazes críticas sociais. Um bom exemplo
é a canção “Que país é este?”, da saudosa banda Legião Urbana. Geraldo, afinal,
que país é este?
Geraldo:
Ainda estou à procura da resposta também. Mas dá pra intuir algumas coisas.
Digo que temos uma cultura variada, riquíssima, única, que poderia funcionar
como a base de propulsão para nos projetar de fato no tão vaticinado “País do
futuro”. Mas, paralelo a isso, a essa cultura impressionante, corre a vileza, o
mau-caratismo, a desumanidade de gestores públicos e políticos que nos impedem
de avançar. Soma-se a isso a impunidade patrocinada por uma Justiça frouxa e
ineficiente e tem-se o retrato de um país fadado a viver da expectativa de se
tornar grandioso. Como diz a letra da música da Legião Urbana: “Ninguém
respeita a Constituição/mas todos acreditam no futuro da nação”.
Lohan:
Um texto, para I. Kant, só é tratado como literatura quando consegue gerar, de
alguma forma, um resultado estético - quando gera alguma forma de sensação no
leitor, seja prazer ou outra emoção. Qual a sensação que a poesia lhe causa? O
que é uma poesia de qualidade, na sua opinião? Você aconselharia aos poetas desta
competição a se manterem numa linearidade estilística ou a ousarem e explorarem
novos vieses literários?
Geraldo:
Uma das funções do texto literário é causar esse prazer estético de que nos
fala Kant. E mesmo quando se propõe a fazer crítica social, não pode se
esquecer de que se trata, primeiramente, de um texto literário. Como disse Ezra
Pound, literatura é linguagem carregada de significado. No caso da poesia, o
tratamento que se dá à linguagem é no sentido de provocar o estranhamento, a
surpresa, o encantamento, a reflexão. Em mim, a poesia causa arrebatamento. O
que procuro na leitura de um poema, em primeiro lugar, é esse estranhamento,
esse choque por me encontrar diante de algo aparentemente inapreensível pelo
filtro da razão. É só depois mesmo que se deve fazer uso da razão para entender
o poema, como nos ensinou Octávio Paz. Considero que há poesia de boa qualidade
quando o poeta conjuga de maneira equilibrada forma e conteúdo, deixando
transparecer seu estilo, sua alma, ou seja, aquilo que o torna original. A
busca dessa originalidade é imperiosa na modernidade. Ousar se torna, então,
algo importante. Mas dizer, aqui, que cada poeta desta competição deve romper
com a linearidade estilística e procurar novos vieses literários é bastante
complicado. Penso, nesse caso, em Drummond, autor de uma poesia que apresenta
uma grande variedade temática e técnica, e João Cabral de Melo Neto, cuja
poesia aborda poucos temas e apresenta uma variação estilística mínima. E os
dois, obedecendo à própria sensibilidade, são geniais.
Lohan:
Pra terminar, qual mensagem você deixa aos poetas em relação ao tema desta
rodada (Crítica Social)?
Geraldo:
Fazer poesia de cunho social, ou de crítica social, não é fácil. Exige que o
poeta saiba dosar com justeza forma e conteúdo, para que o caráter de crítica
às mazelas sociais não se sobreponha demais àquilo que é próprio da poesia: o
ritmo, o sentido plurissignificativo da linguagem poética, a capacidade de
surpreender. Do contrário, o poema vira apenas um instrumento de crítica
social, caindo, muitas vezes, no panfletário. Lembro-me de muitos poemas da
década de setenta, no auge da repressão militar, que criticavam duramente a
ditadura e professavam o advento da liberdade. Hoje, relendo-os, vejo o quanto
são verdadeiros na intenção de querer mudar a realidade, porém, quando vistos a
partir da estética, da análise literária, apresentam-se pobres, inexpressivos
poeticamente. São poemas engajados sem nenhuma poesia. Bem intencionados, mas
apenas isso. Penso que Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade e o Ferreira
Gullar menos ligado ao partido são bons exemplos de como fazer um poema de crítica
social sem perder o sentido do poético. Posso encerrar dizendo que o melhor
conselho de como se portar na feitura do poema foi dado por Drummond no poema
‘Procura da poesia’. Não há como errar depois de lê-lo. Sucesso e boa sorte a
todos!
Entrevista
com: Nonato Gurgel
Nonato é doutor em
Ciência da Literatura pela UFRJ e professor de Teoria da Literatura da UFRRJ. É
autor de "Luvas na Marginália - escritos em torno da poética de Ana
C" (no prelo). Divulga as suas produções culturais e acadêmicas no blog
Arquivo de Formas: http://arquivodeformas.blogspot.com/
Lohan:
Olá, Nonato Gurgel. Primeiramente, é um prazer imenso recebê-lo aqui, no blog
Autores S/A. Nesta semana, o tema proposto aos poetas concorrentes do concurso
foi: O Sertão. Esta ideia foi concebida a partir de uma homenagem ao escritor
Euclides da Cunha, autor do livro “Os Sertões”. O que esta obra proporcionou a
você (reações, aprendizados, trabalhos...), e o que ela representa, na sua
opinião, no cenário literário do nosso país?
Nonato:
Parabéns ao blog pela escolha do tema e do autor. É um prazer falar deste livro
de Euclides da Cunha, um marco na Literatura Brasileira. O texto de “Os
Sertões” rompe. Há nele uma ruptura de gêneros literários e a construção de uma
outra forma estética que se situa entre o ensaio e o romance. Além disso,
Euclides introduz a interdisciplinaridade entre artes e ciências,
possibilitando uma infinidade de leituras ideológicas, formalistas,
psicanalíticas...
Essas rupturas e os demais
procedimentos estéticos dos quais Euclides faz uso nOs Sertões, dizem muito da
violência social que o seu texto encerra. Com medo dessa violência, adiei
durante anos a leitura do livro. Li o “Grande Sertão: veredas”, de Rosa,
releitura assumida de Euclides, e atravessei sertões de Graciliano, José Lins,
Cascudo e Cabral, mas sempre adiando solos e desertos de Euclides. Até que,
atentando para a identidade do Brasil e suas contradições, deparei com a sua
dimensão paradisíaca e violeta. Dimensão essa que Euclides traduziu muito bem
neste livro híbrido e viril que traumatiza e vinga. Depois dele, a literatura
deixou de ser “o sorriso da sociedade”.
Lohan:
Em
seu ótimo texto, “Overdose do real”, encontrado no blog Arquivo de Formas
(http://arquivodeformas.blogspot.com/), você afirma que "o perfil
literário contemporâneo surge em sintonia com os gráficos da mídia e do
mercado, mas de ouvido aberto ao discurso da crítica". Seria possível um
autor posicionar-se de modo a atender tanto aos estímulos mercadológicos quanto
aos oriundos da crítica especializada? Qual autor você apontaria, hoje, com um
perfil exemplar condizente com sua visão de autor contemporâneo?
Nonato:
Esse perfil condiz com a maioria dos autores contemporâneos publicados pelas
principais editoras. Autores que frequentam as bienais e os mega eventos, a fim
não apenas de autografar e comercializar os seus livros, mas principalmente de
contatar o leitor – o grande personagem desta história.
Lohan:
De acordo com sua experiência profissional e de vida, o que mais importa, em um
certame como este: o autor, a sua obra ou o leitor/jurado? Na sua opinião, o
leitor/jurado deve valorizar a trajetória do autor-competidor ou uma análise
isolada de seus poemas seria mais justa?
Nonato:
Sabemos que, desde a produção das vanguardas e a construção das poéticas
modernas, no início do século XX, o autor perdeu muito da sua onipotência.
Sabemos também que, a partir deste contexto estético e histórico da
modernidade, o papel do leitor e a produção da obra ganharam leituras infindas
e criaram procedimentos inusitados. Neste sentido, sou borgiano e prezo muito
por uma poética da leitura. Para Borges, importavam muito mais as páginas lidas
do que as páginas que ele escrevia. Na verdade, essa poética da leitura
consiste numa descarada declaração de amor às formas herdadas da tradição
literária. Por isso, um poeta contemporâneo como Paulo Leminski pergunta no seu
belo “Catatau”: Não somos os ossos da tradição?
Lohan:
Nonato, pra terminar, qual conselho você deixa aos poetas dessa competição em
relação a esta temática, O Sertão? Você poderia dar alguma sugestão de leitura?
Nonato:
Gosto muito desta temática do sertão. Não chega a ser um conselho, mas uma
sugestão. Sugiro aos poetas a releitura de autores da tradição modernista que
possuem o sertão como tema: Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, João Cabral,
Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Antônio Torres... No link abaixo encontra-se
um texto nosso, sobre o tema do sertão, que acaba de sair na revista da
Uniabeu: http://arquivodeformas.blogspot.com/2011/06/os-sertoes-e-alguma-coisa-do.html
Entrevista
com: Paulo Fodra

Paulo nasceu e vive em
São Paulo. Formou-se arquiteto, mas trabalha com marketing e branding. É também
músico, membro da banda Chevy 69, arqueiro e leitor compulsivo. Viciado na
agitação da metrópole, escreve para se livrar das vozes que moram em sua
cabeça. Participou da coletânea steampunk “Deus Ex Machina – Anjos e Demônios
na Era do Vapor” (Editora Estronho, 2011), com o conto “A Seita do Ferrabraz”.
Seu livro de microcontos “Insólito” – microalucinações (Selo 3x4, Editora Multifoco),
foi lançado em 2011. Mantém o twitter @paulofodra e divulga seus contos
fantásticos no site www.paulofodra.com.br.
Lohan:
Olá, Paulo, primeiramente, é um prazer recebê-lo aqui no Autores S/A. Escritor,
blogueiro, arquiteto, músico, arqueiro, trabalha com Marketing... Quantas
especialidades o compõem! Quais as semelhanças que você pode identificar entre
ser um arquiteto com o ser um escritor?
Paulo:
O ofício do arquiteto, mais do que desenhar e construir, é organizar o espaço.
É materializar uns sonhos e desejos. É se conectar às pessoas e provocar
emoções. Escrever também é mais do que juntar palavras. É construir uma imagem
dentro da cabeça de outra pessoa. Essa imagem, assim como a arquitetura,
precisa de planejamento e técnica para a execução. Só que esses dois fatores,
sozinhos, não têm a capacidade de emocionar um indivíduo. É uma equação
delicada e deliciosa de se equilibrar.
Lohan:
Em seu perfil na rede virtual, você diz que ''escreve para se livrar das vozes
que moram em sua cabeça''. Desde quando você ''ouve'' essas vozes, Paulo?
Quando se descobriu escritor, e como?
Paulo:
A mesmice sempre me inquietou. Nunca me conformei com a rotina enquanto pano de
fundo para a vida. Viver é sentir, experimentar. Por isso, sempre imaginei
novas formas de fazer velhas coisas. Nunca me contentei, por exemplo, em
escrever uma redação "Minhas férias" como as que os meus colegas
liam, ano após ano, na escola. Não queria dizer o que todo mundo dizia, pois
sentia que havia mais a ser dito. Nunca me contentava com uma explicação
superficial. Escrever foi o modo que encontrei de canalizar a minha visão
pessoal do modo como as coisas são, para compartilhá-la com outras pessoas.
Lohan:
Paulo, você é blogueiro, e também já participou de uma antologia. Os melhores
poemas deste concurso formarão uma antologia, que será publicada pela editora
Multifoco. Você, que está imerso nesta realidade dos blogs, acredita que pode
nascer daqui, deste concurso realizado no Autores S/A, um grande nome da
literatura?
Paulo:
Atualmente, tenho visto muitos talentos à deriva. A maior dificuldade continua
sendo ser ouvido pelo público certo. Nesse processo, conta muito o empenho
pessoal do autor, os projetos encampados por blogs como o Autores S/A. Vamos
torcer!
Lohan:
Pra finalizar, qual é o conselho que você deixa aos poetas competidores, Paulo?
Na sua opinião, qual será o perfil do poeta vitorioso neste certame?
Paulo:
O grande conselho que eu dou para quem está no concurso, ou mesmo procurando
sua trilha pela escrita, é insistir até encontrar uma voz própria. Ou várias. O
que não se pode, nem se deve fazer, é ignorá-las ou sufocá-las pensando no lado
comercial. Tapinhas nas costas são bons de vez em quando, mas ser porta-vozes é
uma imensa e solitária responsabilidade. Ir contra isso não vale a pena.
Entrevista
com: Ana Elisa Ribeiro

Nascida e residente em
Belo Horizonte, 35 anos. Doutora em Linguística e pós-doutora em Comunicação.
Professora do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
(CEFET-MG). Publicou os livros de poemas "Poesinha" (Poesia Orbital,
1997), "Perversa" (Ciência do Acidente, 2002) e "Fresta por onde
olhar" (InterDitado, 2008), além de poemas e contos em coletâneas no
Brasil e em Portugal. É colunista do Digestivo Cultural (www.digestivocultural.com) desde
2003. No Twitter, é @anadigital.
Lohan:
Olá, Ana Elisa. É um enorme prazer recebê-la no blog Autores S/A. Ana, você já
escreveu algum poema ou texto de outro gênero em homenagem a um autor(a) de sua
preferência? Aliás, qual é o seu autor(a) favorito, Ana Elisa?
Ana
Elisa: O prazer é meu. Não sei se tenho um autor favorito,
mas tem uns caras que mudaram meu modo de ver a literatura e o mundo. O
primeiro que me vem à cabeça é o Paulo Leminski, o kamiquase curitibano. Outro
é o Fernando Pessoa, o múltiplo português e todos os seus diversos,
especialmente o Álvaro de Campos. O Guimarães Rosa, nosso mineirão aqui, não
pode deixar de ser citado. Escrevi sim poemas inspirados em alguns poetas aí. O
mais evidente é um poema que refiz ou recriei com base na Cantiga da
Ribeirinha, do Paio Soares Taveirós, autor medieval do que é considerado o
primeiro texto escrito em língua portuguesa. É uma espécie de tradução. Há
outros. Acho que fiz coisas inspirada no Leminski. Mas fiz outras, inspirada em
poemas de poetas que não curto muito também. Uma espécie de
"melhoria".
Lohan:
Tomando como suporte um dos títulos de seus textos publicados no site Digestivo
Cultural (http://www.digestivocultural.com/),
o ''É possível conquistar alguém pela escrita?'', faço-lhe a seguinte pergunta:
enquanto poeta, como conquistar o seu leitor? Existe algum artifício em
especial, ou basta exprimir a sua verdade?
Ana
Elisa: Não sei se existe artifício. Os leitores são
vários, então você fisga uns e não fisga outros. Não há como saber. O escritor
universal não existe, né. O que eu vejo é que os temas pegam leitores, mas o
texto fácil, ágil, rápido também pega. Escrever sobre sexo, por exemplo, é
batata. Mas texto bom é bacana também. Eu tento escrever com espontaneidade e
meu jeito é esse, é ágil. Não pensei em técnicas para isso. Já o texto do
Digestivo... Bem, é aquilo. A escrita pode funcionar como canto de sereia. Há
pessoas que se apaixonam pelo eu lírico ou pelo narrador. É possível conquistar
alguém por e-mail, por exemplo. Ou pelas colunas do site. Já aconteceu comigo.
Lohan:
De acordo com sua experiência como professora e poeta, qual conselho e/ou
sugestão você dirige a todos os poetas desta competição? Qual o caminho você
aponta para um poeta sagrar-se querido tanto entre os jurados como entre o
público-leitor e, dessa forma, poder vir a ser o vencedor do concurso?
Ana
Elisa: Difícil dar conselhos ou recomendações. Poesia se
faz testando, escrevendo, ganhando intimidades com a língua, deixando a
expressão vir. Poesia é um parafuso solto. Eu sugiro não forçar a barra e não
querer se parecer com alguém.
Entrevista
com: Victor Paes

Victor é escritor, ator,
editor da revista e da editora Confraria do Vento. Publicou em 2007 o livro de
poesia “O óbvio dos sábios” e em 2010 o livro “Mas para todos os efeitos nada
disso aconteceu”, pelo projeto Dulcineia Catadora. Foi publicado pela editora
Record, no prêmio “Nossa Gente, Nossas Letras”, e recebeu o prêmio Jovem
Artista, da Rioarte, por texto teatral encenado no Projeto Nova Dramaturgia, no
teatro Carlos Gomes. Tem publicados seus textos em revistas e sites como “Cronópios”,
“Germina”, “Polichinello”, “Celuzlose”, “Babel”, entre outros. É um dos 21
poetas da coletânea “XXI Poetas de hoje em dia(nte)”, organizada por Priscila
Lopes e Aline Gallina, pela editora Letras Contemporâneas. Escreve também para
teatro e já teve montadas algumas de suas peças, dentre elas “Mara em um quarto”,
“As três Marias”, e “Os cálices do deus”. Publica o blog http://victorpaes.blogspot.com.
Lohan:
Olá, Victor Paes. Primeiramente, é um grande prazer recebê-lo aqui no Autores
S/A. No livro "O que é poesia?", no qual você está presente como um
dos poetas que concederam sua opinião a respeito da poesia, você diz que o
mecanismo poético é arrebatador e indomável. A técnica excessiva, na construção
poética, não seria a tentativa (vã?) de domar as palavras, estruturá-las de
modo que se encaixem perfeitamente umas às outras? Quem arrebata o leitor? O
poeta, com sua genialidade, ou a própria poesia (as indomáveis palavras)?
Victor:
O prazer foi todo meu. Bem, quando falo de mecanismo, estou englobando tudo
aquilo que faz um poema ser arrebatador, antes mesmo de ser criado. E há muita
coisa envolvida aí, desde o que chamamos de “genialidade” do poeta, que nada
mais é que uma disponibilidade quase doentia para o arrebatamento (que muitos
poetas forjam que têm, mas não têm), passando pela técnica (ou até, muitas
vezes, pela falta dela) e por diversos outros fatores, até mesmo os olhos e
ouvidos do leitor. Dar mais ou menos valor à técnica é dar mais ou menos
atenção a um desses fatores, tão essencial quanto os outros. Agora, tentar
domar as palavras é tão vão quanto tentar domar a vida.
Lohan:
O seu livro se chama ''O óbvio dos sábios". Conte-nos um pouco sobre este
seu trabalho e o porquê deste título. O que seria o óbvio para os sábios, caro
Victor?
Victor:
Esse foi meu primeiro livro, publicado em 2007 (com poemas que já vinha
escrevendo há alguns anos). O título é uma ironia com aquilo que parece que
todos sabem, mas que só os sábios é que acabam “sabendo”. Discutimos muito,
falamos sobre tudo, mas quando alguém aparece com alguma solução para algo,
geralmente é a mais óbvia. E minha ideia foi jogar isso no palco (o livro é em
forma de diálogos), botar no fogo essa nossa gana por sermos complexos... Essa
gana da qual somos incapazes de fugir...
Lohan:
Solicitamos aos poetas competidores, nesta rodada, que escrevessem sobre o
seguinte tema: Pai - Uma homenagem. O dia dos pais se aproxima. Victor, como é
ou como foi a sua relação com seu pai? Você poderia nos dizer algum momento
marcante já vivenciado com seu pai, aproveitando o ensejo da data?
Victor:
Nossa, escolher um momento é muito difícil... Quando somos crianças, tudo que
vem dos pais é tão marcante, que acabamos guardando muita coisa... Enfim, tem
uma lembrança que me vêm à cabeça sempre: era um dia de domingo normal, de um
frio normal, de um leite sendo fervido normalmente por ele no fogão e eu estava
sentado, de meias, esperando com ele... Vira e mexe tenho esse flash. Nunca me
perguntei por quê. E também nem quero me perguntar. Só sei que é um belo quadro...
De que gosto de me lembrar...
Entrevista
com: Tânia Tiburzio
Tânia é mineira. Está
morando em SP há 4 anos, tem 32 anos, é advogada, membro do conselho editorial
da Mundo Mundano (www.mundomundano.com.br).
Administra o blog: http://diariodett.blogspot.com/
Lohan:
Olá, Tânia! Primeiramente, é um prazer recebê-la aqui no Autores S/A. Além de
escritora, você também é advogada. Quais são os pontos de intersecção que você
pode encontrar entre esses dois, digamos, ramos na sua vida?
Tânia:
Obrigada ao Autores S/A pela oportunidade. Fiquei muito honrada com o convite.
Bem, inicialmente não me considero uma escritora, costumo dizer que só “brinco”
com as palavras já que elas não me deixam outra saída. Quanto à sua pergunta
penso que Direito e Literatura só se aperfeiçoam com o bom uso da palavra e
esse é o ponto comum. No Direito, uma palavra usada de maneira equivocada pode
colocar tudo a perder, uma lei ou sentença mal redigida pode levar a uma
injustiça. Ser preciso, lapidar bem as frases, escolher a melhor palavra e a
melhor hora para usá-la são características necessárias tanto ao operador do
Direito quanto ao escritor. O bom profissional do Direito ama as palavras e é
com elas que se alimenta e vive, tal como um escritor. Não é por acaso que
temos tantos advogados, juízes e promotores ligados à literatura, sejam como
escritores ou simplesmente como bons leitores, críticos e exigentes. O próprio
Mundo Mundano, site basicamente de literatura do qual participo, foi criado por
uma advogada e vários são os colaboradores que também labutam no Direito.
Lohan:
Tânia, você é um dos membros e administradoras do site Mundo Mundano
(http://mundomundano.com.br/v1/index.php). Você acredita que a Internet é um
bom meio para divulgar o trabalho poético? Como você enxerga essa realidade
poética-virtual?
Tânia:
Eu acho que não dá mais para pensar em poesia sem pensar em Internet. A poesia
aqui se espalha de uma forma incrível. A reposta do leitor é muito rápida e
isso gera uma satisfação incrível para o escritor. Afinal, todo mundo escreve
para ser lido, não é mesmo? No mais, muitas pessoas que vejo lançando livros
começaram por meio de blogs ou em sites como o Mundo Mundano.
Lohan:
Solicitamos aos poetas competidores, nesta rodada, que escrevessem sobre o
seguinte tema: Pai - Uma homenagem. O dia dos pais se aproxima. Tânia, como é
ou como foi a sua relação com seu pai? Você poderia nos dizer algum momento
marcante já vivenciado com seu pai, aproveitando o ensejo da data?
Tânia:
Lohan, se estou aqui hoje entre tantos artistas devo isso ao meu pai, um homem
apaixonado por literatura. Foi com ele que adquiri o hábito da leitura, o gosto
pela poesia. Meu pai conhece tudo, tem opinião formada sobre tudo e sou sua
grande fã. Apesar de engenheiro e matemático sempre foi muito ligado às
ciências humanas e isso o faz ter uma visão de mundo muito especial. O mais
engraçado que fui proibida de dar livros a ele pela minha mãe, porque ele se
apega aos livros e a deixa sozinha.
Entrevista
com: Manuel Antônio de Castro
Manuel nasceu em março
de 1941, em Portugal. Em 1952 emigrou para o Brasil. Em Minas Gerais - cursou
ensino médio com os frades franciscanos. De 1962 a 1964 fez o curso de
filosofia no Rio Grande do Sul, tendo como professor Dom Cláudio Hummes. Sai do
convento e em 1965 cursa durante um ano Sociologia na UFRJ (antiga FNFi). Sai e
faz o curso português-francês, terminado em 1969. Convidado pelo prof. Eduardo
Portella, torna-se professor da UFRJ em 1970. De 1971 a 1973 faz o Mestrado e
se torna Mestre, com a Dissertação: O homem provisório no grande ser-tão. Uma
leitura de Grande Sertão: veredas. Em 1976 faz concurso para Assistente na
UFRJ. Em 1975 inicia o doutorado e com a tese O acontecer Poético - a história
literária, obtém o título de Doutor em Letras. Por concurso, em 1998, se torna
Titular de Poética, dando continuidade à sua travessia. Suas pesquisas e
publicações desenvolvem uma Poética da Poiesis, voltada para a integração de
Pensamento e Poesia. Leciona nos Cursos de Pós-Graduação e orienta Dissertações
de Mestrado e Teses de Doutorado no Programa de Ciência da Literatura, na Área
de Poética, da Faculdade de Letras da UFRJ. É autor de um dicionário digital de
POÉTICA E PENSAMENTO, cujo endereço é: www.dicpoetica.letras.ufrj.br
. Fez 70 anos agora e por isso está aposentado da Universidade, mas neste
semestre está dando um curso na pós: A história do sentido da arte. É às 5as.
feiras no horário de 10:30 às 13:00. Há os alunos inscritos oficialmente e os
que são ouvintes. Se alguém quiser participar sinta-se convidado. Neste
semestre estão sendo publicados dois livros com ensaios em sua homenagem: um de
professores amigos e outro de ex-alunos. Além disso, publicará um livro de
ensaios: “Arte: o humano e o destino”. Administra o blog http://www.travessiapoetica.blogspot.com/
Lohan:
Olá, Manuel. É um prazer imenso recebê-lo aqui no Autores S/A. Você é autor da
tese de Doutorado ''o acontecer Poético - a história literária''. Manuel,
afinal, o que é o acontecer poético, na sua concepção?
Manuel:
O sub-título é: A história literária. De uma maneira geral, o que se ensina
como história da literatura é muito dispersivo e fraco, pois fala-se de tudo,
só as obras não falam. E sem a fala das obras não há poesia, não há obra de
arte. Então, nesse sentido, a história literária tem de ser diferente da mera
historiografia, porque o centro tem de estar nas obras. São elas que fazem a
história. Mas então ela será um acontecer. Todo acontecer é a eclosão do
sentido histórico e ontológico do ser humano na realidade. Sendo ontológico, é
poético. Portanto: acontecer poético. É o que chamo de onto-lógico. Onto diz o
próprio de cada um, pois cada um diz: "eu sou". Não é o
"eu" que faz o "sou", mas este é que possibilita o que cada
um é enquanto um "eu". O próprio são as propriedades ou
possibilidades de chegar a ser o que já desde sempre cada um é. Realizar essas
possibilidades é a nossa tarefa poética. Todos somos potencialmente poetas. Já
o lógico vem do verbo grego legein,
de onde se originou, via latim: legere,
o nosso ler. E o que quer dizer? Por, ocupar uma posição no silencio. Essa
posição do e no silêncio permite a fala, por isso o seu segundo sentido é
reunir e o terceiro é dizer. Dizer é proclamar a reunião e ordem, sentido do
que se põe, das diferentes posições em que a realidade se manifesta. Mas os
três vigoram na unidade da linguagem. A linguagem é o sentido do ser. Portanto,
ontológico é advir ao sentido do que se é enquanto próprio. A linguagem
(vigorar do dizer) enquanto sentido é o poético. Daí o título: Acontecer
poético.
Lohan:
Manuel, você elaborou um belo trabalho virtual, que é o dicionário digital de
Poética e Pensamento, cujo endereço é (www.dicpoetica.letras.ufrj.br).
Como surgiu a ideia desse trabalho? E como ele é elaborado por você, existe
alguma metodologia?
Manuel:
A ideia é muito antiga, comecei em 1984 fazendo fichas com passagens
importantes de grandes autores. Fui acumulando fichas. Na década de 90 surgiu a
oportunidade de usar o computador para publicar textos. Então um dia notei que
poderia passar as fichas para um computador e fazer um dicionário virtual,
digital. O difícil era o programa. Um dia, conhecendo a WIKIPEDIA, me informei
e me disseram que o programa era gratuito. Consegui o programa e o tutorial e
um aluno da graduação da UFRJ se propôs a estudar o tutorial. Um grupo de
alunos e monitores foram digitando as fichas. E assim surgiu o dicionário.
Porém, ele é diferente dos dicionários existentes, como é explicado logo na
primeira página. Acho que a inovação principal está em duas facetas: não é
semântico, não se guia por uma hierarquia ou sequência de significados; por
isso pode crescer indefinidamente. É o que está acontecendo. A qualquer hora e
dia posso incluir novos verbetes e novas fichas em cada verbete. Ainda ontem à
noite incluí duas sobre caos. É só conferir. Eu não abri para que qualquer
pessoa possa incluir verbetes ou fichas para conservar uma certa unidade ou
linha de pensamento criativo, poético. Sugestões podem ser mandadas que, depois
de examinadas, serão incluídas ou não.
Lohan:
Pra terminar, deixe, por favor, uma mensagem aos 3 poetas semifinalistas deste
certame, que foi tão disputado até aqui.
Manuel:
No filme de Wim Wenders, “Tão Perto, tão longe”, o anjo e a anja, em
determinado momento, dizem: Somos os mensageiros, não somos nada, não somos a
mensagem. A mensagem é o Amor. E o que é então o Amor? É, diria para os poetas,
que ele é a fonte de todo e qualquer poema. Mas como poético, o Amor é éros, a
força irradiante e manifestadora de toda a realidade. Portanto, do que somos e
não somos, de nosso próprio. Como poetas, deixem-se tomar pelo Amor que
manifesta e faz acontecer a realidade, daquilo que é e daquilo que não é,
daquilo que somos e não somos. Então os poemas serão o acontecer do sentido do
que somos e falarão a partir do vigorar do silêncio, fonte de toda fala do
sentido poético. Sem escuta do silêncio não há poesia, não se produzem poemas
poéticos. É um desafio, mas que vale a pena.
Entrevista
com: Flávia Rocha
Flávia nasceu em São Paulo em 1974.
Jornalista, formada pela Fundação Cásper Líbero, trabalhou nas redações das
revistas Casa Vogue, Carta Capital, República e Bravo!, e atualmente colabora
com diversas publicações. É autora dos livros de poemas “Quarto Habitáveis”
(Confraria do Vento, Rio de Janeiro), a ser lançado no final deste mês, e o
bilíngue "A Casa Azul ao Meio-dia/ The Blue House Around Noon"
(Travessa dos Editores, 2005). Tem mestrado (M.F.A.) em Criação
Literária/Poesia pela Columbia University e é editora-chefe da revista
literária americana Rattapallax, com sede em Nova York (www.rattapallax.org).
Editou antologias de poesia brasileira para as revistas Rattapallax (EUA),
Poetry Wales (País de Gales) e Papertiger (Austrália), entre outras. Fundou,
com seu marido, Steven Richter, a Academia Internacional de Cinema
(www.aicinema.com.br), escola de cinema localizada em São Paulo, onde, entre
diversas atividades, desenvolveu um curso de Criação Literária. Morou em
algumas cidades de que sente saudades: São Paulo, Niterói, Curitiba, Nova York,
e hoje vive em Portland, Oregon, nos Estados Unidos.
Lohan:
Olá, Flávia. É um prazer recebê-la aqui no Autores SA. Você fez Mestrado em
Criação Literária. De acordo com sua experiência como pesquisadora da área, e como
poeta, qual é o melhor caminho para a criação poética? Se não existe caminho,
existe ao menos algum artifício técnico que seja fundamental para o poeta?
Flávia:
Tem
duas coisas que todo mundo que quer levar literatura a sério precisa fazer
continuamente (e todo mundo já sabe): ler e escrever. Ler criticamente,
escrever criticamente. A tendência de todo escritor é, naturalmente, gostar
daquilo que escreveu -- mas nosso ego não costuma ser nosso melhor crítico. A
melhor forma de nos protegermos do nosso ego é estudar e explorar o que existe
no mundo lá fora. Escrever bem é um talento adquirido, uma arte — e como tal
requere aplicação, habilidade, experimentação de seus meios e possibilidades
estéticas, conceituais, formais. Há escritores que defendem o autodidatismo na
literatura — o caminho mais “romântico” e isolado. Eu penso que a experiência
literária é mais profunda quanto mais externizada. Sou a favor das oficinas
literárias, da troca de ideias, das leituras, dos blogs, dos fóruns, do
intercâmbio de textos, dos concursos, de experiências de laboratório como
mecanismos de aprimoramento da escrita. As oficinas proporcionam tudo isso.
Fornecem leituras enquanto processo. Indicam caminhos, alguns atalhos que
talvez sozinho você não viesse a encontrar. E, claro, desconstroem o seu ego,
no bom sentido.
Lohan:
Flávia, você também lida com a área cinematográfica. Muitas pessoas dizem que
preferem assistir o filme a ler o livro cujo filme foi baseado. Como você vê a
transposição de obras literárias para as telas do cinema? Neste mundo onde o
imagético reina, isso é favorável para a literatura?
Flávia:
Um não elimina o outro, complementam-se. As adaptações para o cinema abrem as
possibilidades de expressão de uma obra originalmente literária — destacam-se
dela, para transformarem-se em outra coisa. A música desde sempre serve-se da
literatura da mesma forma que o cinema serve-se da música e da literatura. Um
desdobramento. Cada meio com suas especificidades e limitações. Tenho uma
postura liberal, não conservadora, para com as artes, a vida em geral. Olho com
curiosidade e entusiasmo para as transformações da linguagem, para as
intervenções tecnológicas. O cinema se serve de muitas artes e linguagens, e a
literatura é uma fonte inesgotável. Se você vai ver um filme esperando que
corresponda exatamente ao livro de que a história foi adaptada — você vai
certamente se desiludir. Pior ainda se você tentar fazer um filme que
corresponda ao livro— já começou mal. As boas adaptações conhecem bem as
vantagens e limitações da sua linguagem, e extraem o melhor delas. Favorável
para a literatura? Eu diria, favorável para a obra, pois ganha novas matizes de
expressão. Em termos de mercado, pode ajudar a vender livros, sim.
Lohan:
Pra terminar, deixe uma mensagem aos poetas semifinalistas, cara Flávia,
orientando-lhes em como ser um vitorioso com vossas poesias neste mundo onde se
lê tão pouca poesia.
Flávia:
Escrever poesia — quem escreve sabe — faz você se sentir vivo, vitorioso de
alguma forma, mesmo que íntima e internizada. A poesia é o fim, em si mesma, e
é só assim que ela acontece verdadeiramente. Depois, fora da poesia, há a fase
social, em que o poema deixa de pertencer a você, cai no mundo — um mundo
pequeno? -- não, o mundo da poesia é gigantesco, pois atravessa séculos. Tive um
professor, o poeta americano Edward Hirsch, que diz sempre que o poeta não vive
exclusivamente no seu tempo, sua vivência poética acontece ao longo de toda a
história. Ler Drummond é estar com Drummond. O tempo se dissolve. E se formos
pensar exclusivamente no mundo de hoje, também é enorme. São inúmeras revistas,
blogs, sites, eventos de poesia acontecendo todos os dias mundo afora. E
principalmente gente escrevendo poesia, em toda parte, no silêncio do papel
(contemporaneizando a metáfora: no silêncio das telas de computador). Aos
semifinalistas: é um prazer encontrar vocês por aqui!
Entrevista com: Marcelo Diniz
Marcelo é poeta, letrista, tradutor e
professor do Departamento de Ciências da Literatura da Universidade Federal do
Rio de Janeiro. Publicou “Trecho” (Aeroplano e Fundação Biblioteca Nacional,
2002) e “Cosmologia” (Sete Letras, 2004). Assina parcerias nos cd de Fred
Martins.
Lohan:
Caro Marcelo, é um prazer tê-lo aqui no Autores S/A como jurado convidado. Você
é um dos melhores sonetistas contemporâneos brasileiros, segundo o poeta
Roberto Bozzetti. Como você avalia a construção poética nos dias de hoje? O
soneto ainda mantém seu fôlego em meio a tantas inovações poéticas ou vive-se a
era da poesia rápida, sem qualquer métrica?
Marcelo:
Primeiramente, sou grato pelo convite dessa entrevista. Grato também pela
generosidade do julgamento sempre suspeito de um grande amigo como o Roberto
Bozzetti. Particularmente, tenho minhas reservas quanto a esses adjetivos hiperbólicos
como “um dos melhores”, que mais me parecem atender ao julgamento de atletas do
que o da própria poesia. A construção poética de hoje é, como sempre foi,
plural. A rapidez e ausência de medida são qualidades que me parecem
superficiais a se observar nessa pluralidade. Um poema breve, aliás, o soneto é
considerado uma forma breve, sempre exige uma temporalidade de recepção que
poderíamos, com a mesma superficialidade, afirmar ser longa. Essa temporalidade
da reflexão de um poema, a meu ver, é justamente o que se pretende imortal no
poema, ou seja, sua a temporalidade. Se, de uma maneira um tanto generalizada,
vivemos um tempo de diluição e rapidez, a arte me parece exigir de quem a faz e
de quem frui certa paciência, a paciência de uma duração que nos faça leitores
e autores de um universo de linguagem que pode se medir em séculos, e que exige
certa cultura de leitura de fôlego, digamos, cetáceo, um pulmão de mamífero
capaz de atravessar oceanos.
Lohan:
Marcelo, nesta rodada, um dos temas é o ''amor''. O romântico ainda tem seu
espaço na poesia hodierna? O amor continua sendo o tema mais universal e
praticado que existe na poesia?
Marcelo:
Creio que um fator fundamental da arte é justamente o da abolição da
temporalidade linear e sucessiva que faça com que o passado encontre um lugar
definitivo e clarificado na História (essa ficção de H maiúsculo). A arte não
reconhece o passado como passado, ela se constitui na contemporaneidade de seu
gesto. A relação da arte com o tempo é de ordem não sucessiva, ressuscitadora
portanto, uma espécie de desfribilador constante das tradições e do que a
temporalidade linear insiste em enterrar e esquecer. Nesse sentido, não vejo o
que na arte não tenha mais lugar.
Lohan:
Qual é a sua relação com a música, Marcelo? Você diria que letras musicais
podem ser consideradas poemas?
Marcelo:
Minha relação com a música se inicia com minha relação com os músicos. Meu
ouvido foi iniciado no jazz pelos amigos de adolescência Fred Martins e Marcelo
Martins. Minha educação musical é totalmente relacionada ao aprofundamento de
minha amizade com Fred, meu parceiro quase absoluto em meu trabalho como
letrista. Considero a música como a arte mais linfática de nossa cultura,
aquela que se encontra presente mesmo quando não estamos atentos a ela. Isso
que para muitos músicos e teóricos significa uma perda de prestígio e
banalização, para minha modesta opinião de leigo em termos de música, é um
poder, uma espécie de onipresença da música em nossas vidas. Não acho que todas
as letras possam ser consideradas poemas. A letra é um texto cuja finalidade
não é o próprio texto, é um texto que é parte de uma estrutura maior e que por
vezes prescinde da própria letra. O poema, não: a finalidade do poema é o
próprio poema, sua musicalidade é interna e autossuficiente. Essa diferença
abstrata que considero aqui, no entanto, não abole o fato de que cada caso é um
caso.
Lohan:
Por fim, deixe uma mensagem aos poetas. Como ser um poeta vitorioso em seu
ofício?
Marcelo:
Ler. Ler para sempre. E, sobretudo, reescrever. Não há vitória nesse ofício. Há
a alegria decerto, um afeto cuja finalidade se encontra nele mesmo.
Entrevista
com: Tavinho Paes
Tavinho é compositor e
produtor (indústria fonográfica). Escritor (peças teatrais, poemas, romances).
Roteirista (cinema, televisão). Jornalista (serviços de informação); WebMaster
& webDesigner. Artista plástico. Formado em Economia (PUC-RJ = 1973/1976) e
Comunicação (PUC-RJ =1976/1977). Fundador da gravadora Indie Records e do CEP
20Mil. Compositor e Produtor Musical; webMaster HTML; Produtor Gráfico. Editor
Literário; vídeoMaker Independente; Vendedor de Livros. Realizador
Independente; Produtor Cooperativo; Diretor Intuitivo. Fundador do Cep 20.000,
com Chacal, Carlos Emílio Lima e Guilherme Zarvos (1991). Tem mais de 250
registros gravados por artistas como: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria
Bethânia, Gal Costa, Marina Lima, Marisa Monte, Rita Lee, Lulu Santos, Lobão,
Skank, Ney Matogrosso, etc... Compôs sucessos como: “Totalmente Demais”, “Linda
Demais”, “Radio Blá”, “Sexy Yemanjah”, etc. Produziu trilhas musicais para
filmes como “Navalha na Carne” e “Luzia Homem”, entre outros Colabora com
jornais eletrônicos, tendo sido editor dos extintos Cult Link e PasquiNet.
Lohan:
Olá, Tavinho Paes. É um imenso prazer recebê-lo aqui no Autores S/A. Poeta,
jornalista, artista plástico, já compôs para vários artistas de renome (Lobão,
Caetano Veloso, Marisa Monte, Rita Lee, Ney Matogrosso, Roupa Nova, etc.),
posso considerá-lo um dos artistas mais versáteis do Brasil. Qual faceta
artística lhe proporciona maior prazer? Uma se complementa à outra?
Tavinho:
Todas se complementam, mas atuar falando, de improviso, em performance (prefiro
palestra-show) ... Isso é demais!
Lohan:
Como você vê a relação da Internet, hoje, com a poesia? Na sua opinião, quais
são as vantagens e as desvantagens na disseminação da poesia neste veículo, a
Internet? Você acredita que concursos de poesia virtuais, desse formato, são
válidos?
Tavinho:
A internet terá invariavelmente os dois lados da moeda sempre que você a girar.
O mais positivo é a liberdade de informação que você tem. O negativo é que,
mesmo podendo ser acessado por milhões de pessoas ao mesmo tempo, você só pode
acessar uma pessoa de cada vez.
Lohan:
Pra finalizar, que mensagem você deixa aos poetas que estão rumo a Grande Final
deste concurso de poesia virtual?
Tavinho:
O concurso é uma estrada que pode te levar a qualquer lugar, portanto, faça
como Cristóvão Colombo, que saiu sem saber aonde ia e quando chegou não sabia
onde estava... Ou seja: siga em frente, mesmo que seja necessário, de vez em
quando, dar um passo atrás!
Entrevista
com: Ângela Gomes
Ângela nasceu e mora em
Curitiba. É formada em Musicoterapia, pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP);
Especialista em Fundamentos do Ensino da Arte (FAP); Mestranda do PPG Antropologia
Social/ Arqueologia (UFPR). Escreveu a peça infantil “A bruxa louca da cabeça
oca”, apresentada do mini-auditório do Teatro Guaíra (1986); com o poema
“Mariposa” participou da “Primeira Mostra de Haicais de Curitiba”; poema
“Labirinto” – Menção Honrosa no Concurso Helena Kolody (2003); autoria e
récitas do “Cd Cádmio, poesia de transição”, com acompanhamento musical de
Ricardo Pozzo e participação de Tullio Stefano (2006). Participou das
antologias: “Poetas de Curitiba” (2003); “Pó&teias” (2006); “E-zine Bar do
Escritor” (2007); “Bar do Escritor”, “Anarquia Brasileira de Letras” (2009); “Pó&teias,
Poética” (2010). Tem poemas nos blogs: Pó&teias (poeteias.blogspot.com);
Bar do Escritor (www.bardoescritor.net/blog)
e Aedoscuritibanos (aedoscuritibanos.blogspot.com).
Lohan:
Olá, Ângela! É um prazer recebê-la nesta final, no Autores S/A. Ângela, como
você se descobriu escritora? Quais foram (e são) suas influências literárias?
Ângela: Ensaios escritos desde a pré-adolescência.
Em torno dos 15, 16 anos passei a frequentar, na minha cidade, Curitiba, um
espaço chamado “Feira do Poeta”, onde imprimiam poemas e faziam varais de
poesia aos domingos, durante a Feira do Largo da Ordem. Às vezes havia palco
para récitas, outras, rodas de poesia. Conheci muitos poetas nesse espaço.
Muito enriqueceu minha vida. Promovido pela Fundação Cultural de Curitiba e a
Feira do Poeta, participei da “Primeira Mostra de Haicais de Curitiba” em 1988,
onde dezessete haicais foram selecionados e, entre eles, um meu. Foi uma
sensação muito boa. Mas, passei a me reconhecer como poeta, verdadeiramente,
após uma menção honrosa em um “Concurso Helena Kolody” em 2003. Eu sempre me vi
poeta, mas, ser chamado poeta, pareceu ter novo significado. Não creio que
sejam necessários títulos e louros para isso, pois, Poeta é um estado de
espírito; não se é melhor ou pior por isso. Mas, esses olhares externos me
fizeram olhar mais para dentro de mim e, tentar encontrar mais poesia. Minha
primeira influência foi “A manhã é uma criança” de Joan Walsh Anglund, que
ganhei com 9 anos de uma amiga dos meus pais. Depois, vieram Casimiro de Abreu,
Cecília Meireles, Castro Alves, Olavo Bilac, Cruz e Sousa e, especialmente,
Fernando Pessoa. Mas, minha grande paixão é Hermann Hesse.
Lohan:
Qual mensagem você deixa aos poetas dessa Grande Final? Qual caminho (caso
haja) um poeta deve trilhar para ter sucesso nessa carreira?
Ângela:
Desejo muito sucesso a todos! Coragem para enfrentar o mundo e seus desafios!
Desejo que ao olharem para dentro de si, se percebam pessoas muitíssimo
especiais, pois, ser poeta é ter a sensibilidade à flor da alma. O caminho a
seguir, se existe um, é o de encontrar-se com seus iguais. Os amigos, embora
alguns a gente nem venha a conhecer pessoalmente, são as nossas referências. De
alguma maneira os percebemos como iguais e, caminhar junto é sempre melhor que
isolar-se, penso eu. E, ler e escrever para se inspirar e se exercitar.
Lohan:
Pra terminar, Ângela, o que é poesia?
Ângela:
Para mim a Poesia está em todas as coisas do mundo, do sagrado ao profano. Das
coisas límpidas às indigestas, intragáveis e lúgubres. Sendo, a tradução desses
estados de coisas o grande desafio dos poetas, que é o de resgatar a beleza que
possa parecer estanque, singular ou intangível Mesmo não havendo essa
pretensão, por certo, sua tradução se tornará bela, pois, ousou adentrar e
descrever mundos; universos gigantescos ou ínfimos. A prática da poesia, eu
vejo como uma catarse, uma transmutação do estado das coisas, pelo engenho de
um poeta, através do desenho das palavras.
Entrevista
com: Jorge Tufic

Jorge Tufic é um poeta e jornalista brasileiro. Tufic iniciou sua
educação em sua cidade de origem, transferindo-se posteriormente para Manaus,
onde concluiu os estudos. Em 1976, foi agraciado com o diploma "O poeta
do ano", prêmio concedido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amazonas, em
reconhecimento à sua vasta e intensa atividade literária. Tem seu nome inserido
em várias antologias, entre as quais destacam-se "A Nova Poesia
Brasileira", organizada em Portugal por Alberto da Costa e Silva,
e "A novíssima Poesia Brasileira", que Walmir Ayala lançou na Livraria São
José, no Rio de Janeiro, em 1965.
É sócio-fundador da Academia Internacional Pré-Andina de Letras, com sede em Tabatinga, no estado do Amazonas. Fez várias conferências literárias e é membro
efetivo de algumas entidades culturais, tais como: Clube da Madrugada, Academia Amazonense de Letras,
União Brasileira de Escritores
(Seção do Amazonas) e Conselho Estadual de Cultura. Pertenceu à equipe da página
artística do Clube da Madrugada,
"O Jornal" e do "Jornal da Cultura", da Fundação Cultura do Amazonas. Colabora em vários órgãos de
imprensa, com especialidade no Suplemento Literário de Minas Gerais. Jorge Tufic é o autor da
letra do Hino do Amazonas,
contemplado que foi com o primeiro lugar em concurso nacional promovido pelo
governo daquele estado.
Lohan:
Olá, Jorge! É um prazer imenso recebê-la nesta final, no Autores S/A. Jorge,
você já foi agraciado com o prêmio de poeta do ano, em 1976; está na antologia
"A Nova poesia brasileira" e na "Novíssima poesia
brasileira". Sem dúvida, você figura entre os grandes poetas do nosso
país. Como tudo isso começou? Desde quando a poesia visita sua vida, e como
essa 'relação' se desenvolveu; o processo do fazer poético, os prêmios
conquistados...?
Jorge:
Ora, como diz o grande Fernando Pessoa em sua “Mensagem”, ¨todo início é
involuntário”. Acrescido da falta de estímulo ao bisonho neófito que fui, este
início pode até ser o próprio final de uma vocação promissora. O fato é que,
depois de amargar a incineração de meus primeiros manuscritos, retornei de mala
e bagagem à lojinha de miudezas de meu velho pai, disposto a ser apenas um
daqueles pobres comerciantes da periferia do Mercado ¨Adolpho Lisboa¨, em
Manaus. Tempos corridos, surpreende-me um Fiscal da Prefeitura de nome Manoel
Lacerda, com a oferta de um jornal literário do Rio de Janeiro, Letras &
Artes, e ali estava um soneto de Cecília Meireles na última página. Fiquei
maravilhado porque o mesmo já não tinha rimas, só métrica. Falei isso ao Manoel
Lacerda, ao que ele, estendendo-me uma Parker
de ouro, falou: - Toma, Jorge, você também pode fazer um soneto, e ainda
assim, sem uma única rima, deve ser moleza. Para não ir mais longe, Lohan, eu fiz o soneto, com alguns pés quebrados, mas fiz. Levou-me esse herói desta saga à ¨Folha do Povo¨, em cuja página foi divulgado num sábado para mim festivo e glorioso. Numa visita que resolvi fazer ao jornal, convidou-me o Secretário Adauto Rocha, um bom paraibano, a ficar como repórter e aprendiz de redação. Assim também o fiz. Quando saí desse órgão de Francisco Rezende, que foi empastelado, fundei meu próprio jornal, ¨O Tempo¨, de pouca duração mas forte no combate político. E a Poesia, como ficou? Bem, deu-se minha estreia com ¨Varanda de Pássaros¨, quase junto com Ferreira Gullar. Antônio Olinto brindou essa estreia em sua coluna de ¨O Globo¨, Porta de Livraria. Daqui em diante começa uma história maior, quando percorri o Sul e o extremo Sul fazendo parte de uma caravana de poetas, a qual, depois, ajudara na fundação do Clube da Madrugada.
de ouro, falou: - Toma, Jorge, você também pode fazer um soneto, e ainda
assim, sem uma única rima, deve ser moleza. Para não ir mais longe, Lohan, eu fiz o soneto, com alguns pés quebrados, mas fiz. Levou-me esse herói desta saga à ¨Folha do Povo¨, em cuja página foi divulgado num sábado para mim festivo e glorioso. Numa visita que resolvi fazer ao jornal, convidou-me o Secretário Adauto Rocha, um bom paraibano, a ficar como repórter e aprendiz de redação. Assim também o fiz. Quando saí desse órgão de Francisco Rezende, que foi empastelado, fundei meu próprio jornal, ¨O Tempo¨, de pouca duração mas forte no combate político. E a Poesia, como ficou? Bem, deu-se minha estreia com ¨Varanda de Pássaros¨, quase junto com Ferreira Gullar. Antônio Olinto brindou essa estreia em sua coluna de ¨O Globo¨, Porta de Livraria. Daqui em diante começa uma história maior, quando percorri o Sul e o extremo Sul fazendo parte de uma caravana de poetas, a qual, depois, ajudara na fundação do Clube da Madrugada.
Lohan:
Jorge, muitas pessoas não sabem, mas você é o autor do hino do Amazonas. Como
se deu esse processo de criação? Houve algum concurso, havia alguma regra estabelecida?
E se você tivesse a oportunidade de criar uma estrofe para um suposto novo hino
brasileiro, um 'hino contemporâneo', por assim dizer, como seria essa estrofe?
Jorge:
O Concurso para escolha da letra do Hino do Amazonas foi lançado em 1980. Foi
um Concurso Nacional. Coube a mim o primeiro lugar de acordo com o julgamento
do Conselho Estadual de Cultura. Não havia tempo para concurso da música, já
que o lançamento desse símbolo do estado estava marcado para 5 de setembro.
Maestro Cláudio Santono foi convidado pelo Governador José Lindoso,
e fez a música. Um recorde. Não tenho ideia de como eu faria para mudar a letra do Hino Nacional. Acho que ele já mudou o bastante na execução musical, ficou melhor.
e fez a música. Um recorde. Não tenho ideia de como eu faria para mudar a letra do Hino Nacional. Acho que ele já mudou o bastante na execução musical, ficou melhor.
Lohan:
Qual mensagem você deixa aos poetas dessa Grande Final? Qual caminho (caso
haja) um poeta deve trilhar para ter sucesso nessa carreira?
Jorge:
Aos jovens que se encantaram com a palavra poética, só tenho a dizer que leiam
mais e escrevam menos.
Lohan:
Pra terminar, Jorge, o que é poesia?
Jorge:
Definir
poesia também coube a mim fazê-lo no livro “Curso de Arte Poética¨, prêmio
nacional de ensaio da Academia Mineira de Letras. Sugiro que o leia.
Entrevista
com: Izacyl Guimarães Ferreira
Nasceu
no Rio de Janeiro, em 1930. Formado em Direito, pela UERJ; Letras, pela UFRJ;
Biblioteconomia, pela Biblioteca Nacional; e Marketing, pela New York
University. Escreve, traduz e comenta poesia. Editor da revista LB Literatura
Brasileira, parceria do PEN Clube com a Scortecci Editora. Trabalhou na Direção
de marketing, Rede Globo de Televisão de 1977-1980. Trabalhou na Criação e
Superintendência da Globo Vídeo, 1981-1983. De 2002 a 2009 foi Presidente do
Conselho Consultivo e Fiscal da União Brasileira de Escritores (UBE), editor da
revista “O Escritor”, onde assinava a seção “Leitura de poesia”, e do Portal “O
Jornal da UBE”, www.ube.org.br. Finalista
do Prêmio Jabuti em 1998, na categoria poesia. Recebeu o Prêmio ABL de Poesia,
em 2008.
Lohan:
Olá, Izacyl! É um prazer imenso recebê-la nesta final, no Autores S/A. Em 2007,
você foi premiado, com o livro "Discurso urbano", pela Academia
Brasileira de Letras como o melhor livro de poesia do ano, por unanimidade,
recebendo o prestigioso "Prêmio ABL de Poesia" em julho de 2008. Qual
é a sensação de ser premiado pela ABL? Teria sido este o auge de sua carreira
como escritor?
Izacyl:
A
sensação de ser premiado é ótima. E pela ABL, maior ainda o prazer. Fui
premiado logo já na estreia, em 1953, com o Hipocampo, prêmio pra inéditos em
livro, fechando as Edições Hipocampo, de Geir Campos e Thiago de Melo. Desde
então recebi umas menções honrosas, em 71 num concurso da Secretaria de Cultura
do Estado de São Paulo, prêmio "Governador do Estado de SP”. Depois num Jabuti
da Cãmara Brasileira do livro e logo após no internacional "Casa de las
Américas", de Cuba. Não penso em "auge". Prêmio é bom mas não é
essencial. Só me inscrevi empurrado por amigos, nas três menções. O prêmio da
estreia também, por insistência de meu professor na FNF, José Carlos Lisboa. O
da Academia não tem inscrição. Foi surpresa e soube por telefonema de Lêdo Ivo.
Lohan:
Você também atua como crítico e participa de diversas bancas de jurados.
Embasado nessa sua experiência, qual seria a maior dificuldade de julgar um
trabalho literário? A subjetividade atrapalha a prevalência da análise técnica?
Izacyl:
Julgar é sempre difícil. E errar é comum. André Gide não quis publicar
Proust... Fernando Pessoa perdeu "Mensagem" para um anônimo já
esquecido... Se gosto - porque me comove ou me impressiona - releio e depois
comparo com os outros concorrentes. E decido. Se em comissão, ouço os outros
membros antes de decidirmos em comum acordo.
Lohan:
Izacyl, é verdade que você foi aluno de Manuel Bandeira? Conte-nos um pouco sobre
essa experiência e o que ela representou para você como pessoa e profissional
das palavras.
Izacyl:
Ter ouvido MB, ter conversado com ele, fantástico. Devia ter ouvido mais,
conversado mais, aprendido mais. Mas era um jovem tímido e me assustei. Conto a
experiência num poema que você lê na minha Antologia, "Lembrança do
mestre". Num par de críticos leio que eu soube capturar alguma coisa do
jeito dele.
Lohan:
Qual mensagem você deixa aos poetas dessa Grande Final? Qual caminho (caso
haja) um poeta deve trilhar para ter sucesso nessa carreira?
Izacyl:
Não sei. Nunca persegui sucesso, sempre fui discreto, pouco lido. Quem merece
acaba sendo descoberto...
Lohan:
Pra terminar, Izacyl, o que é poesia?
Izacyl:
Nunca soube responder isso. Ou se escreve muito e se dá exemplos ou se tenta
chegar perto de uma resposta satisfatória. "...o que se faz com
palavras", disse Mallarmé a Degas, "é um "não sei quê";
disse Bécquer, teóricos gastam toneladas de papel tentando explicar etc etc.
Como toda arte - pintura, música, etc - o receptor educado reconhece ao
contato. Mexe com a pele, o coração se mexe, o leitor se arrepia etc. Outro
poeta disse que é como Deus, ou o amor. Não se nomeia mas se sabe o que é e,
sobretudo, digo eu, o que não é poesia... "Emoção recolhida em tranquilidade",
foi dito por Tenyson, se não me engano. Pound: "Literatura é linguagem
carregada de significado" . Daí pode-se dizer, talvez, que Pound acharia
que poesia seria isso em grau máximo. Octavio Paz escreveu centenas de páginas
sem chefiar a um verbete. Não pretendo resolver o impasse.
Entrevista
com: Roberto Bozzetti
Sou Roberto Bozzetti,
carioca nascido em 1956, moro em Mendes, interior do Estado do Rio. Sou
professor de Teoria da Literatura na UFRural RJ, em Seropédica. Lá também
desenvolvo a linha de pesquisa "Poesia literária e poética da
criação", refletindo sobre as questões que aproximam e/ou distanciam essas
duas práticas de criação. Meu mestrado e meu doutorado foram dedicados ao tema.
A minha tese de doutorado, que defendi em 2006, inclusive, foi sobre Paulinho
da Viola. Um dos projetos é retomá-la, depurá-la, publicá-la em livro (havia um
projeto que começou a se desenhar em 2008, inclusive com proposta de uma boa
editora, mas acabou não indo à frente). Publiquei há pouco meus dois livros de
poesia: “A tal chama o tal fogo”, que saiu no começo de 2008, e “Firma
irreconhecível”, que saiu no começo de 2010 (embora o ano de edição seja 2009,
foi lançado mesmo no começo do ano seguinte). Ambos foram publicados pela
editora carioca Oficina Raquel, o que me honra muito, pois é uma editora
corajosa, que tem se destacado no lançamento de significativos poetas
estreantes (não que eu queira me incluir), inclusive autores portugueses até
então desconhecidos no Brasil e que vão repercutindo aos poucos, devido a alta
qualidade de sua produção, como é o caso de valter hugo mãe, atração da última
FLIP. Além disso, a feitura artesanal dos livros lhes confere um charme todo
especial.
Os dois livros saíram num período de tempo curto entre um e outro porque o primeiro reunia na verdade poemas escritos nos anos 80, um projeto de livro que tinha sido na verdade abandonado por mim. Os poemas chegaram ao Ricardo Pinto de Souza, editor da Oficina Raquel, principalmente pela insistência de Marcelo Diniz, amigo e poeta que muito admiro. A partir daí, Ricardo "adotou" o livro e resolveu fazê-lo. Já o segundo livro foi motivado, sobretudo, pelo fato de eu me ver novamente motivado para o trabalho político com o envolvimento que acabei tendo para que o primeiro saísse (rever os poemas antigos, eliminar os que já não me agradavam nada, dar pequenos retoques em um e outro, etc.) O Ricardo gostou também dos poemas que juntei no Firma irreconhecível e resolveu editar também este. No momento pretendo, no plano acadêmico, solidificar as pesquisas envolvendo a criação poética literária propriamente dita e cancional; no plano da criação, vou tocando o blog que ativei há mais ou menos um ano, o "Firma irreconhecível" (http://robertobozzetti.blogspot.com). Ali publico os poemas que vou escrevendo, os poemas de outros poetas de que gosto, umas crônicas, posto canções que amo e que comento, escrevo sobre futebol às vezes... Enfim, vou me divertindo. E penso que a receptividade tem sido bem legal, com alguns leitores fiéis. Mas poderia melhorar: os leitores comentam pouco no blog, preferem vir falar comigo pessoalmente. Isso tem um lado legal, mas faz com que a discussão no blog ande pouco. Assim, vou "experimentando força", que nem Macunaíma, até resolver partir pra comer cobra pra valer e encarar de frente um novo livro. Mas não tenho pressa nenhuma disso não. Aliás, ando pensando, para um futuro livro, fazer um trabalho conjunto com o desenhista e pintor mineiro Paulo Sergio Talarico. Propus isso a ele, que gostou da ideia, e aos poucos vamos nos movimentando. E por fim, acho que vou voltar a fazer letra de canção: tenho algumas parcerias com Fred Martins, outras mais antigas com Paulinho Lemos. São dois compositores ótimos, amigos meus, que atualmente moram na Espanha. Foi uma coincidência engraçada estarem os dois lá (eles se conheceram em brevemente e por meu intermédio), um ao Norte e outro ao Sul. Andei convencido durante algum tempo de que não fazia bem letra de canção, mas estou retomando aos poucos. Mandei uma letra pro Paulinho, vamos ver.
Os dois livros saíram num período de tempo curto entre um e outro porque o primeiro reunia na verdade poemas escritos nos anos 80, um projeto de livro que tinha sido na verdade abandonado por mim. Os poemas chegaram ao Ricardo Pinto de Souza, editor da Oficina Raquel, principalmente pela insistência de Marcelo Diniz, amigo e poeta que muito admiro. A partir daí, Ricardo "adotou" o livro e resolveu fazê-lo. Já o segundo livro foi motivado, sobretudo, pelo fato de eu me ver novamente motivado para o trabalho político com o envolvimento que acabei tendo para que o primeiro saísse (rever os poemas antigos, eliminar os que já não me agradavam nada, dar pequenos retoques em um e outro, etc.) O Ricardo gostou também dos poemas que juntei no Firma irreconhecível e resolveu editar também este. No momento pretendo, no plano acadêmico, solidificar as pesquisas envolvendo a criação poética literária propriamente dita e cancional; no plano da criação, vou tocando o blog que ativei há mais ou menos um ano, o "Firma irreconhecível" (http://robertobozzetti.blogspot.com). Ali publico os poemas que vou escrevendo, os poemas de outros poetas de que gosto, umas crônicas, posto canções que amo e que comento, escrevo sobre futebol às vezes... Enfim, vou me divertindo. E penso que a receptividade tem sido bem legal, com alguns leitores fiéis. Mas poderia melhorar: os leitores comentam pouco no blog, preferem vir falar comigo pessoalmente. Isso tem um lado legal, mas faz com que a discussão no blog ande pouco. Assim, vou "experimentando força", que nem Macunaíma, até resolver partir pra comer cobra pra valer e encarar de frente um novo livro. Mas não tenho pressa nenhuma disso não. Aliás, ando pensando, para um futuro livro, fazer um trabalho conjunto com o desenhista e pintor mineiro Paulo Sergio Talarico. Propus isso a ele, que gostou da ideia, e aos poucos vamos nos movimentando. E por fim, acho que vou voltar a fazer letra de canção: tenho algumas parcerias com Fred Martins, outras mais antigas com Paulinho Lemos. São dois compositores ótimos, amigos meus, que atualmente moram na Espanha. Foi uma coincidência engraçada estarem os dois lá (eles se conheceram em brevemente e por meu intermédio), um ao Norte e outro ao Sul. Andei convencido durante algum tempo de que não fazia bem letra de canção, mas estou retomando aos poucos. Mandei uma letra pro Paulinho, vamos ver.
Lohan:
Olá, Roberto! É um prazer imenso recebê-la nesta final, no Autores S/A. Você já
publicou dois livros de poesia, sendo um deles, o "Firma
Irreconhecível". Afinal, Roberto, o que é essa firma que não se reconhece?
Roberto
Bozzetti: Se você faz questão do “afinal” que puxa sua
pergunta... Um poema é afinal sempre e tão-somente ele mesmo. Ai só lendo o
poema, talvez ajude ouvi-lo também (porque é muito longo), já que lancei um CD
só com ele junto com o livro e o estou postando aos poucos no meu blog. Ele é afinal,
como todo poema, o que nele está escrito.
Lohan:
Roberto, quais foram e quais são suas referências e influências literárias?
Qual sugestão literária você pode deixar para os poetas desta competição?
Roberto
Bozzetti: As referências literárias são inúmeras, vou citar
sem preocupação consciente de nenhum tipo de ordenação: Kafka, Machado, Mann,
Flaubert, Dostoievski, Graciliano, Jane Austen, Mallarmé, Baudelaire, Gregório,
Drummond, Bandeira, Oswald, Lorca, Cabral, Vinícius, Cesário Verde, Augusto dos
Anjos, os concretistas, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos... Muita gente mesmo,
sei lá quem, quantos mais. Quanto a influências, devem estar aí entre essas
referências, não é?, ou talvez ainda mais precisamente entre aqueles que foram
importantes numa determinada fase de formação de leitor e (pretenso) poeta e
hoje talvez não sejam tanto. Mas me acho muito incompetente pra honrar minhas
influências. Agora, além disso, as influências vêm também daquilo que é além do
que é literário: vêm do cinema, vêm das artes plásticas, vêm da música, vêm de
outros campos da produção de conhecimento. Acho importante ressaltar isso, as
referências (talvez influências) extra-literárias: Degas, Bosch, Caravaggio,
Chagall, Van Gogh, os cartunistas, Fellini, Antonioni, Monicelli, Truffaut,
Gláuber, Bressane, Arcand, Tarkóvski, Altmann... A extraordinária canção
brasileira da geração dos anos 60, Tom, João Gilberto, Paulinho da Viola, Jorge
Ben e Jorge Mautner, Jards Macalé, Chico, Gil, Tom Zé, Caetano... Mais a música
de Debussy, de Mozart, de Bartók, dos Stones, enfim, o mundo de que me cerco
(falta muita coisa nessa listagem, cito de impulso). Sugestão literária no
sentido de que autores ler? Bom, acho que o caminho individual de cada um deve
ser feito com discernimento, boa capacidade de leitura. Ah sim e ler, na medida
do possível, os críticos, as discussões teóricas sobre poesia. Não ter medo
disso é muito importante, até porque boa parte da crítica de poesia (talvez a
melhor, acho que Pound e os concretistas têm razão) é feita pelos poetas em
seus próprios poemas. Essa é uma das lições inalienáveis da modernidade, de
Poe/Baudelaire pra cá. Além disso, é só evitar levar a sério a leitura de
porcaria poética, de má poesia, de livros ruins.
Lohan:
Qual mensagem você deixa aos poetas dessa Grande Final? Qual caminho (caso haja)
um poeta deve trilhar para ter sucesso nessa carreira?
Roberto
Bozzetti: A mensagem já foi ali em cima, não é? É ler ler ler
ler ler, escrever, cortar e reservar pra ir decantando. Por aí. Agora, acho
fundamental não ter pressa em publicar também, resistir à tentação de ter o
livrinho com seu nome e fotinha e tal, curvar-se a essa tola vaidade – a que
ninguém é infenso, mas é tola vaidade sim e, obviamente, é ruim. Legal é ir
publicando em blogs, em sites, em veículos para isso (que hoje existem aos montes),
abrir-se para discutir sua poesia com outros poetas e não-poetas, discussões
que contribuam para o processo de criação. Mas quando eu digo “abrir-se” é
abrir-se mesmo. Não se melindrar com críticas, não se deixar levar por elogios
fáceis, não acabar fazendo do convívio pretexto pra textinhos laudatórios e/ou
ressentidos do que e de quem não merece. Em boa medida, quem faz poesia – quem
faz qualquer atividade que envolva produção de conhecimento, seja da forma que
for, ainda mais no Brasil – deve habituar-se, sobretudo, ao silêncio como
resposta. É um tanto perturbador, mas é concreto. Não tem como fugir. Caminho
pro sucesso não sei não, nem estou interessado. Aliás, nem sei o que está
embutido nessa expressão aqui empregada.
Lohan:
Pra terminar, Roberto, o que é poesia?
Roberto Bozzetti: Ah, esse gran finale vai ficar com gosto de
anticlímax. É fatura, como o nome grego indica, é o que se faz com a linguagem.
É a mais aguda forma de consciência de linguagem, como modernamente ficou
claro. É empregar seu esforço em nome do que é belo por ser, entre outras
coisas, gloriosamente inútil, num mundo que padece de (foi Nietzsche quem
disse? a conferir) excesso de utilidade.
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